5.27.2005

O imprevisto


O post era para se chamar "Dar Aulas". Mas assim ninguém lia. Ficou "O imprevisto", porque vou falar de Dinis Pestana, um insuspeito catedrático de rosto circunspecto que ensina probabilidades e estatística na
FCUL.
Não o conheço de parte nenhuma. Mas chegou-me hoje um e-mail com uma pérola. Um enunciado de exame de sua autoria com a prova viva de que o massacrado Monsanto ainda inspira:

dinis pestana
Uma rápida pesquisa na net revela que este Dinis Pestana é o mesmo que comentou a mentecapta metodologia de seriação das escolas secundárias com o lacónico:

"... Se 100% das pessoas que morrem com um cancro praticaram relações sexuais ou são filhas de pessoas que praticaram relações sexuais, então aquela prática explica a preocupante prevalência da doença. Poderia também citar-se a afirmação, muito em voga, de que se uma altíssima percentagem de condutores vítimas de acidentes de viação tem muito álcool no sangue, então o álcool é perigoso para a condução. O raciocínio é completamente errado (note-se que se podia substituir álcool no sangue por ter os cabelos escuros) o que obviamente também não significa que a ingestão de álcool não tenha influência nos acidentes."


Não há muito que se possa dizer sobre estudos mal feitos pois não?

O mesmo Dinis Pestana que motiva os alunos com estudos estatísticos sérios sobre se "a mais velha profissão do mundo é bem paga" (Sim, um estudo sobre isto pode ser sério e ter interesse social) e pondo-os a jogar às cartas a dinheiro nas aulas.
O mesmo que diz que as aulas servem para "despertar o interesse dos estudantes para adquirir o verdadeiro conhecimento" e que "o que falta aos alunos portugueses é incentivos e precisam de ter a noção da extraordinária competição que existe. Uma das coisas que mais me choca é ver que os nossos jovens são descuidados em relação àquilo que os rodeia e aquilo que nos rodeia é uma internacionalização em que cada vez mais vamos ter em Portugal indivíduos oriundos de outros países, com um conhecimento científico muito profundo e que podem tomar conta dos lugares para os quais os nossos jovens não estão preparados e isso é uma situação que me assusta imenso”.
Um professor que ainda encara a profissão como um sacerdócio e não como um trabalho como qualquer outro.

O imprevisto, esse, espreita-nos a cada esquina, já a probabilidade associada a Dinis Pestanas é infelizmente baixa.

Labels:

7 Comments:

Blogger Pedro said...

Neste momento o meu trabalho é essencialmente escrever artigos de divulgação a partir de papers científicos, na área da medicina. Tenho pena de não saber quase nada de estatística, porque suspeito que há imensa aldrabice nos ensaios clínicos. Uma história que me anda a irritar particularmente é a dos 'medicamentos para negros' que estão a surgir nos EUA, suportados por estudos publicados em revistas 'insuspeitas' como o New England Journal of Medicine. A história começou quando alguém descobriu que determinado medicamento cardiovascular produzia efeitos diferentes nos negros. A coisa parece-me insustentável por várias razões. Primeiro, nos ditos estudos não é tido em conta o chamado 'estilo de vida', i.e., essencialmente a dieta, o exercício físico e o tabagismo, que são considerados determinantes para o risco cardiovascular. Ora, sabe-se, por um lado, que a população negra nos EUA é mais pobre que a população em geral, e por outro que as pessoas que ganham melhor têm tendencialmente uma alimentação mais saudável e fazem mais exercício. Logo, a ser verdade que há efeitos diferenciados nos negros, é provável que se devam, pelo menos em parte, ao tal 'estilo de vida'.
Segundo, ninguém sabe ao certo definir raça. Terceiro, nos tais estudos a identidade racial é auto-atribuída, ou seja é o participante que diz que se considera negro, branco, hispânico, native american, asiático e sei lá que mais categorias eles têm. Parece-me uma aldrabice pegada, que tem o aval de revistas como o NEJM por, suponho eu, cumprirem as boas prática da estatística. Apesar do fundamento ser completamente duvidoso.

7:43 pm  
Blogger A. R. Ray said...

A minha primeira reacção ao ler a tua história é de incredulidade. Mais uma alienação da sociedade americana pensei... Com todos os lobbys sinistros que existem nos EUA e sendo o das farmacêuticas um é dos maiores não era de espantar.
De facto geneticamente não parece haver até agora qualquer justificação para diferenciar raças. Depois pensei melhor:
No entanto está comprovado que há processos biológicos que funcionam de forma diferente nas diferentes raças. Um exemplo é digestão do leite de vaca. Os negros não conseguem digeri-lo e absorver os nutrientes como os brancos. Porque têm uma flora bacteriana do aparelho digestivo distinta de um branco.

Fisicamente, o que distingue um branco de um negro é a quantidade de melanina. Mas a melanina não é só um pigmento da pele: existe em vários orgãos internos e até no sistema nervoso. O papel da melanina vai muito para além da protecção contra os raios solares. Ajuda a transmitir sinais nervosos e na cicatrização de ferimentos entre outras coisas. Também reage quimicamente com uma série de classes de compostos usados em medicamentos vários.
A melanina é apenas uma das razões pelas quais um individuo de etnia negra deve ter uma alimentação e cuidados de saúde diferentes dos de um branco. Daqui eu concluo que a existência de medicamentos especificos para uma "raça" se justifica plenamente com base na diferença de funcionamento biológico. E nota que nem entrei em conta com os factores sociais que referes!

Claro que isto não invalida que haja charlatanice no que se põe à venda e se propagandeia e também me parece que a distinção entre raças é muito dificil quando falamos de sociedades em que há uma miscigenação muito grande.

Muito interessante para mim será ver como a politicamente correcta sociedade americana vai ver e aceitar a introdução de medicamentos "racistas" no mercado.

Um link interessante sobre diferenças genéticas: Projecto HapMap: http://www.hapmap.org/
Provavelmente no futuro vamos ter medicamentos especificos para cada individuo porque somos todos diferentes algures num bocadito de código genético.

11:14 am  
Blogger Pedro said...

Bom, longe de mim recusar a ideia de que haja diferenças biológicas entre "raças", mesmo sendo este conceito tão problemático. Um exemplo disso tem a ver com questão da pigmentação que referes: a melanina funciona como uma espécie de regulador da síntese da vitamina A, e quanto mais melanina na pele menor a síntese da vitamina. É verosímil que as diferenças da cor da pele (i.e. da densidade de melanócitos na epiderme) tenha a ver com isto. Ou seja, a protecção adicional conferida pela pele escura contra o excesso de radiação ultravioleta implica uma síntese diminuída da vitamina A, mas para uma pessoa que viva nos trópicos isso não é problema porque a radiação recebida é maior. Parece que os negros que vivem em países escandinavos p.ex. têm vantagem (ou mesmo necessidade) em tomar suplementos de vitamina A. Inversamente, é verosímil que a despigmentação da pele dos humanos que vivem em latitudes mais altas se deva a um processo adaptativo que compensa a menor absorção de ultravioletas por uma síntese aumentada de vitamina A graças à diminuição da dendidade de melanócitos (as células que produzem a melanina).
Se calhar não me expliquei bem. É consensual que os chamados factores ambientais desempenham um papel fundamental no desencadear da ateroesclerose. Assim sendo, não faz sentido tomar em consideração o factor raça *sem* ter igualmente em conta esses factores ambientais, que por sua vez estão em estreita ligação com factores sociais -- e isto também é consensual, há muitos estudos que o demonstram. Ora, foi isto, precisamente, que aconteceu nos estudos que referi -- teve-se em conta o factor raça *mas não* os factores ambientais. De resto, este estudo é muito controverso e tem vindo a ser posto em causa por outros, nomeadamente um que comparou pessoas brancas e negras residentes em vários países da África e da Europa e em que não foram detectadas as mesmas diferenças que tinham sido vistas no tal estudo americano. Pelo contrário. Uma das bases para o tal estudo tem a ver com o facto de a população negra dos EUA ser mais hipertensa que a população branca. Ora, este segundo estudo mostrou que os africanos negros sofrem menos de hipertensão, por exemplo, que os alemães.
Por outro lado, o tal estudo dos 'medicamentos para negros' 'vende o peixe' das diferenças genéticas sem que de facto, haja uma base genética sólida -- apenas a simples distinção 'étnico-racial' auto-atribuída, que, convenhamos, é uma base muito frágil.
Já agora, acrescento que todo o processo de lançamento do tal medicamento teve, desde o início, uma sociedade médica chamada Association of Black Cardiologists... Enfim, especificidades americanas. Cá para mim é um país de doidos.

3:39 pm  
Blogger Pedro said...

Ou seja, ao contrário do que a minha cabecinha de europeu esperaria, 'politicamente correcto' funciona como um incentivo para a concepção de medidamentos específicos para os 'afro-americanos', e os promotores deste medicamento tiraram partido disto. Aliás, tudo isto só foi possível graças a uma legislação do tempo do Clinton que incentiva a produção de qualquer coisa como 'cuidados de saúde específicos para minorias étnicas ou coisa parecida'. Os promotores do medicamento tiveram alguma dificuldade em convencer a FDA a autorizá-lo -- essa autorização tinha sido recusada anteriormente na sequência dum estudo de fase III que não conseguiu provar qualquer eficácia suplementar em relação aos medicamentos já existentes, o que é um dos critérios fundamentais para a aprovação. Anos depois saiu a tal lei do Clinton, e aí os promotores invocaram-na para recorrer da decisão da FDA -- e conseguiram, com a tal Association of Black Cardiologists a pressionar nesse sentido, que a FDA, pela primeira vez na história, aprovasse um medicamento que tem como indicação tratar de uma doença num grupo racial. Isto não tem nada a ver com indicações específicas para pessoas com determinada configuração genética, que já existem e é provável que apareçam cada vez mais, embora como já disse os fabricantes também tenham invocado este argumento. Se estiveres interessado neste assunto posso mandar-te arigos sobre, incluindo um que eu próprio fiz.

4:03 pm  
Blogger A. R. Ray said...

Pedro, manda-me os ditos artigos para o e-mail (zipados por favor).
São sobre o Bidil?

Foi por isso que eu disse: "Claro que isto não invalida que haja charlatanice no que se põe à venda e se propagandeia e também me parece que a distinção entre raças é muito dificil quando falamos de sociedades em que há uma miscigenação muito grande."

A sociedade americana tem uma série de coisas que são alienações para um europeu (Eu já vivi nos EUA e sei do que falo)mas eles acham normal...
A boa ciência que se faz por lá é feita por uma minoria, o resto é muito mediocre ao contrário do que se julga. A maioria da população engole qualquer estudo mal feito se tiver um "embrulho" vistoso.

Enfim, na Europa também mais de 10% dos medicamentos são placebos e por vezes nem os médicos notam.

ps- Não me mudes de sexo!

10:03 am  
Blogger Pedro said...

Eheh, ok.
A ideia que eu tenho, nesta área da biomedicina, é que a investigação feita pelas instituições estatais americanas é muito boa, e o resto é muito duvidoso, e cada vez mais. Aliás é um assunto de que se fala bastante lá neste momento, pelo que me apercebo. De resto, a revista que publicou o tal artigo (New England Journal of Medicine) não o fez sem publicar, no mesmo número, um editorial muito crítico.

11:53 am  
Anonymous Anonymous said...

Álcool vs Acidentes

Já ouvi defender a percentagem de álcool no sangue de 0,2% em vez de 0,5%, porque as estatísticas demonstram que há mais acidentes com 0,2% do que 0,5%. Sem se fazer um estudo causa/efeito, esta é uma conclusão e espantosa.

Pela mesma lógica também poderei acrescentar que há mais acidentes com 0,1% do que com 0,2%, ou com 0,001% do que com 0,1%. No limite poderei até concluir que há mais acidentes com condutores que tenham bebido qualquer tipo de bebida (alcoólica ou não) do que com aqueles que beberam apenas bebidas alcoólicas.

Eis como a matemática e as estatísticas podem servir para se chegar à conclusão pretendida, por mais absurda que ela seja.

A realidade é que o álcool no sangue não provoca o mesmo efeito em todas as pessoas. Neste como noutros casos o extremismo nunca é a solução mais aconselhável.

Zé da Burra o Alentejano

11:25 am  

Post a Comment

<< Home

--------------------------------------------------------------The End------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------